Por que a taxa Selic influencia tanto o mercado financeiro?

computador mostra grafico finanças

Por Jackeline Rodrigues

O COPOM (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, anunciou em reunião do dia 17 de julho o corte de 0,75 ponto na taxa básica de juros (Selic) A taxa passou de 3%, para 2,25% e atingiu o menor índice da série histórica. A expectativa para o próximo encontro do comitê, em agosto, é de que seja anunciada a taxa de 2%, e esse será um corte residual. A maioria dos membros do COPOM discutem sobre um limite mínimo efetivo mínimo e consideram que, no caso do Brasil, o prêmio de risco tende a ser maior. Os fatores vão além da pandemia atual, com destaque para o Risco Brasil, formado por indicadores que permitem avaliar a estabilidade econômica e política do país e, assim, reflete a confiança dos investidores em relação à nossa economia.

SELIC — Sistema Especial de Liquidação e Custódia, é o ambiente virtual em que são realizadas as negociações dos Títulos do Tesouro Nacional. Essas negociações realizadas geram uma taxa média diária. Então, o COPOM, se reúne a cada 45 dias para definir uma SELIC Meta, que é conhecida como a taxa básica de juros. A decisão do COPOM de seguir mantendo a política de corte, se dá ao momento de instabilidade econômica. Ela funciona como ferramenta para controle da inflação. Hoje, a meta de inflação está em 4%, com tolerância de 1,5% para cima ou para baixo. E, além disso, o corte da taxa básica de juros tem o objetivo de acelerar a economia.

Qual o papel do Banco Central?

Nesse contexto, o Banco Central se vê diante de um dilema: aumentar a sua dívida em relação ao PIB, para conter o desemprego e a perda de renda das famílias; e manter a taxa de juros atrativas o suficiente para o investidor, que avalia também outras taxas, como as relacionadas ao Risco-País. No caso do Brasil, vimos nos últimos meses um aumento do risco-país do e também uma maior valorização do dólar frente ao real. Essas mudanças revelam a saída de capital estrangeiro do país diante de tantas incertezas, tanto econômicas, quanto políticas.

O economista Tomas Piketty, em O Capital no século XXI, explica esse papel dos bancos centrais:

“… os bancos centrais não existem apenas para olhar a vida passar pela janela e manter a inflação baixa. Em situações de pânico financeiro total, eles desempenham um papel indispensável de emprestador de última instância e são também a única instituição pública que, em caso de urgência, evita o desmoronamento completo da economia e da sociedade.”

PIKKETY, TOMAS. O Capital no século XXI, tradução de Monica de Bolle. 1.ª Edição — Rio de Janeiro: Intríseca, 2014. Página 460.

Como as famílias estão enxergando o atual cenário?

Família controla as finanças
Família controla as finanças

Uma pesquisa da Salesforce mostrou que os brasileiros têm se preocupado acima da média global com a situação financeira a longo prazo, a estabilidade no emprego e também com saúde. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias endividadas passou de 63,4%, em 2019, para 67,1% em junho deste ano. Um reflexo do aumento do desemprego, redução de salário e suspensão de contratos.

Em contrapartida, segundo o Banco Central, a poupança teve a maior captação líquida histórica 2020. Isso significa que houve no primeiro semestre do ano mais depósitos do que saques em cerca de R$ 84,43 bilhões. Pode-se relacionar ao fato de que os brasileiros estão mais preocupados com a situação financeira no futuro, com a saúde e com a perda de renda. Além disso, o consumo caiu e as compras estão sendo direcionadas aos bens essenciais, assim, parte das famílias consegue poupar um pouco mais.

E quais são as expectativas do mercado financeiro?

A atual projeção de queda do PIB em 2020 é de 6,54%, em relação à 2019. Essa projeção revela que o mercado ainda se mantém pessimista, e levará um tempo para que a redução da Selic mostre resultados positivos. Neste primeiro momento, mesmo com o crédito mais barato, é possível que as empresas segurem os planos de expansão dos negócios, e as famílias segurem o consumo, pelo menos de itens mais supérfluos. Levará um tempo, e não sabemos quanto, para que a confiança do consumidor melhore de fato e recompense as perdas nos meses iniciais da pandemia.

Os investidores, de uma forma geral, não esperam maiores cortes na Selic para este ano. Eles estão acompanhando as expectativas da taxa para o médio e longo prazo. A média para os próximos 10 anos tem aumentado e isso mostra que o aumento do endividamento do Brasil para conter os efeitos da pandemia, pode impactar a atividade econômica a longo prazo. Quanto maior a dívida de um país em relação ao seu PIB, maiores riscos e, assim, maiores são as taxas de juros cobradas pelos investidores.

Voltando ao curto prazo, especialista veem uma perspectiva um pouco mais otimista para o mercado no segundo semestre de 2020. A bolsa de valores, tem gradualmente entrado em uma rota de recuperação, e o mercado tem esperado que essa recuperação se mantenha nesse segundo semestre. Alguns e-commerces e commodities têm se mostrado resilientes à crise e, isso contribui para a melhora nas expectativas.

O mercado segue de olho nos impactos da pandemia na economia mundial e também nas ações do BC. O atual cenário exige mudanças na política monetária e, embora seja uma das taxas mais importantes para a nossa economia, os impactos dos cortes na Selic serão vistos nos próximos meses e, serão efetivamente positivos se acompanhados por uma melhora na perspectiva dos agentes econômicos, tanto a curto, quanto a longo prazo.

Texto elaborado pela voluntária: Jackeline Rodrigues

Revisão e edição: Lara Madeira

O Ação Jovem do Mercado Financeiro e de Capitais (AJ) é uma associação sem fins lucrativos que visa aproximar os brasileiros do mercado financeiro - www.ajmc.br

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